Alucinação auditiva musical / musical hallucinations / musical ear syndrome – percepção de músicas, melodias ou canções, na ausência de estímulo externo, geralmente em idosos, com perda auditiva e maior prevalência em mulheres.
Paciente feiminina de 73 anos
Paciente refere que escuta música no seu ouvido direito há cerca de dez meses.
Não é sempre a mesma música. Se tiver música ambiente, não percebe a “sua” música desaparece. A música não é em trecho repetitivo. Algumas músicas se repetem, mas é bem variável. Se estiver concentrada em alguma coisa, a música desaparece.
Paciente relata que essa alucinação musical foi de aparecimento súbito.
Ficou viúva há um ano, e mora sozinha.
Vem fazendo acompanhamento com a psiquiatria, em uso de sertralina 100 mg pela manhã. Usa também a donepezila 10mg, e resperidona.
Não foi realizado estudo de ressonância magnética de crânio.
Não foi realizado estudo com EEG (Não teve suspeita de fenômeno epilético).
Não foi submetida a avaliação cognitiva formal (MoCA, MEEM, testes de memória episódica – requer ter ciência se o setor de psiquiatria já realizou).
É frequente a percepção de tontura não rotatória frequentemente.
Na busca por gatilhos de vulnerabilidade emocional, fará nova consulta com a psiquiatria em breve. Recentemente a psiquiatria suspendeu a donepezila para avaliar se melhora a tontura sic. Tem usado dimenidrinato a noite porque ajuda a dormir.


O tema é alucinação auditiva musical (musical hallucinosis/musical ear syndrome).
Musical hallucinations associadas à hipoacusia são bem descritas: mecanismo de “release” das memórias auditivas musicais por desinibição de circuitos temporais devido à privação sensorial (analogia auditiva da síndrome de Charles Bonnet = Alucinações visuais em pessoas com deficiência visual.).
Mecanismo de ação.
Acredita-se que esse quadro resulte de uma hipersensibilidade no córtex auditivo associada à privação sensorial. Danos aos cílios na cóclea/ouvido interno podem reduzir a entrada de estímulos, fazendo com que o cérebro gere sons fantasmas para preencher o vazio com memórias auditivas anteriores.
Estudos de caso anteriores envolvendo fMRI (ressonância funcional) mostraram evidências de hiperatividade nas regiões do cérebro responsáveis pela audição, memória e processamento emocional nesses pacientes. O afinamento cortical no córtex orbito frontal medial esquerdo e no giro temporal direito indica reorganização neural em resposta à redução cortical. O aumento da ativação nas regiões emocionais do cérebro pode indicar angústia ligada aos sintomas desse quadro.
Alucinações musicais têm sido descritas em numerosos pacientes neurológicos e psiquiátricos, mas seu contexto fisiopatológico não é compreendido. Analisando os casos publicados, cinco subgrupos podem ser separados de acordo com sua etiologia: hipacusia, transtornos psiquiátricos, lesões cerebrais focais, epilepsia e intoxicação. Há uma predominância feminina de cerca de 70%. As alucinações musicais ocorrem mais frequentemente em pacientes com mais de 60 anos, embora pacientes cujas alucinações são causadas por lesões cerebrais focais sejam significativamente mais jovens. A dominância hemisférica parece não desempenhar um papel importante na patogênese das alucinações musicais, mas a hipacusia está presente na maioria de todos os pacientes. Esse quadro muitas vezes é confundido com demência em idosos, mas é fundamental distingui-lo dos transtornos que afetam a cognição e causam psicose.
Agentes anticonvulsivantes e antidepressivos têm se mostrado eficazes no tratamento de algumas alucinações musicais.
Embora a síndrome não seja uma ameaça à vida, alucinações persistentes podem ser perturbadoras e podem afetar substancialmente a qualidade de vida dos pacientes. Como os sintomas podem durar minutos, horas ou até mais, a alucinação musical pode ser uma experiência intrusiva e angustiante que exige sensibilidade clínica.
Pacientes e seus cuidadores devem ser informados sobre o diagnóstico e tranquilizados de que os sintomas não são um sinal de doença mental Com medo de julgamento, os pacientes frequentemente relutam em discutir suas alucinações, o que pode atrasar o tratamento e levar a sentimentos de isolamento.
Embora não exista tratamento curativo para o distúrbio, abordar a perda auditiva subjacente pode ajudar a aliviar os sintomas. Além disso, a terapia cognitivo-comportamental pode ajudar os pacientes a aceitar a alucinação.
Esse paciente: Alucinação auditiva musical secundária a hipoacusia neurossensorial bilateral leve (presbiacusia), em paciente idosa, com vulnerabilidade neurocognitiva e emocional (demência leve + luto), sem evidência de lesão retrococlear ou de psicose primária.
Em termos de classificação etiológica (Evers & Ellger): seria do grupo “hipoacusia / musical hallucinosis por privação sensorial”, com fatores adicionais psiquiátricos/neurodegenerativos.
Em síntese, alucinações musicais não formam uma entidade única, são um fenômeno heterogêneo, com vários contextos clínicos e mais de um mecanismo fisiopatológico.
Hipacusia moderada a grave/surdez é o fator etiológico mais frequente (≈ 61% dos casos), apoiando a ideia de “perceptual release”:
- Um nível constante de input sensorial seria necessário para inibir a emergência de traços de memória; quando esse input cai (perda auditiva), memórias musicais poderiam emergir como alucinações.
Outros fatores importantes:
- Transtornos psiquiátricos,
- Epilepsia,
- Lesões cerebrais focais,
- Intoxicações/encefalopatias.
Esses fatores podem atuar isolados ou combinados.
Em estudos futuros, pacientes com alucinações musicais devem ser investigados quanto a:
- Dominância hemisférica,
- Habilidade musical,
- E serem submetidos a neuroimagem funcional (fMRI) durante as alucinações para diferenciar:
- Alucinações musicais vs. percepção musical normal,
- Diferentes subgrupos etiológicos em termos de redes cerebrais envolvidas.
EVERS, S.; ELLGER, T. The clinical spectrum of musical hallucinations. Journal of the Neurological Sciences, Amsterdam, v. 227, n. 1, p. 55–65, 2004.

